Leandro Lima

Design e Velocidade – análise de logotipos ligados a automobilismo.

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Conheça o design de algumas das principais marcas que aceleram nas pistas de corridas. Saiba quais são as semelhanças, diferenças e tendências no design de diferentes equipes automobilísticas. Vamos ver os conceitos em comum entre design e velocidade que, em alguns casos, duram anos!

O Conceito da Marca

O conceito a ser passado através do design gráfico do esporte a motor não é segredo. Estamos falando de carros velozes, competição, recordes a serem quebrados e o que há de mais avançado em tecnologia automobilistica! Principalmente quando falamos de monopostos, que são os carros de categorias como a Fórmula 1. Tudo, desde as pinturas dos carros e capacetes até o material gráfico de divulgação é pensado para inspirar velocidade.

Os Carros

Existem carros que, apesar de velozes não inspiram uma sensação de velocidade tão extrema, quanto os Fórmulas e os Protótipos. São os carros de turismo, de categorias como a NASCAR ou a Stock Car. As suas linhas, mais retas e quadradas, dão uma idéia de peso e baixa mobilidade. O carro parece muito mais forte e resistente, porém parece mais lento. Tiramos estas conclusões só de olhar o carro parado. Comparado com protótipos e fórmulas, eles são de fato mais lentos. As suas formas “rasgam” o ar com mais dificuldade, o que faz com que eles não sejam tão velozes quanto um carro de Fórmula 1. Porém, alguns veículos com  formas excessivamente quadradas, como os caminhões da F-Truck,  parecem mais lentos do que realmente são.

Carro da NASCAR. Linhas quadradas não passam tanta sensação de velocidade.

Os carros Monopostos e Protótipos parecem mais velozes. Mesmo quando não são. As linhas mais agressivas que formam o desenho do carro transmitem essa sensação. Isso foi, na realidade, uma solução aerodinâmica para deixar os carros mais rápidos do que um carro de turismo, por exemplo. Mas, esta sensação de velocidade se dá devido a um conjunto de traços bem orgânicas que formam o carro e é associado a rapidez muito antes do homem pensar a inventar um motor. Se olharmos para a natureza e observarmos os animais mais velozes que existem, como o guepardo, que pode chegar a velocidades de até 120km/h, notaremos que as linhas de seu corpo, principalmente quando corre, tem este formato agressivo que posteriormente apareceram em protótipos de corrida. O formato triangular do seu corpo quando se projeta para frente, sua linha lateral alongada e inclinada para baixo, sua cabeça a frente. Linhas que o homem, quando corre, também projeta em seu corpo para atingir maiores velocidades.

O guepardo, com seu corpo alongado e uma linha central projetada pra frente transmite a sensação de velocidade.

Ao olharmos carros de corrida, notamos estes mesmos traços. A inclinação para frente, as linhas alongadas, o formato triangular. Lógico que isso não foi feito apenas pensando em copiar as linhas naturais que inspiram velocidade. O objetivo de um carro de corrida é ser veloz. Acontece que estas linhas naturais são extremamente aerodinâmicas, facilitam a passagem do ar e facilitam o trabalho dos mecanismos que empurrarão o objeto pra frente, sejam as patas, pernas ou as rodas e motores. Os projetistas dos carros notaram isso. Carros de luxo e super esportivos são feitos com linhas pensadas desta forma. Assim, parecem muito rápidos e tecnológicos.

O Carro de F1 possuí a mesma linha alongada e inclinada para frente, quase como uma flecha rasgando o ar.

Vemos que a sensação de velocidade não é uma invenção da cabeça do homem. A natureza já dava dicas do que seria mais rápido e o que seria mais lento, e isso estava em nosso inconsciente desde os tempos em que observamos as formas do mundo para desenhar. Depois, com estudos, começamos a aplicar isso nos mais diversos projetos. Mas a ligação entre isso e a idéia de movimento foi uma descoberta, e não uma invenção do homem.

Os Logotipos

Os logos das equipes e das categorias de automobilismo também inspiram velocidade.

Fizemos uma análise das marcas das principais categorias de automobilismo, como a Fórmula 1, a IndyCar,  a DTM, WTCC, NASCAR e Stock Car Brasil. Todos estes logos, com raras exceções, possuem sua grafia italicada, projetada a frente, usando isso para manter a idéia de movimento. Mover-se é projetar o seu corpo para algum sentido. Como essas marcas querem transmitir a idéia de que estão avançando com rapidez, a projeção para frente é a mais adequada. Tirando a marca da DTM, que é apenas a fonte inclinada à frente, todas as outras que citei possuem adereços para enfatizar a idéia do movimento.

A da Stock Car e a da IndyCar estão cercadas por uma caixa, que também é projetada para frente, enfatizando o movimento causado pela fonte. O da NASCAR também possuí uma caixa o cercando, projetando-se a frente levando a fonte consigo. Mas o movimento é enfatizado pelo rastro deixado pela caixa, representado pelos quadrados que se dissolvem atrás dela.

Logotipos da IndyCar, NASCAR e Stock Car Brasil

No da Fórmula 1, temos as linhas que mostram a velocidade do movimento da marca, e no da WTCC temos traços que cortam a fonte, além das faixas abaixo que cercam o texto “FIA WORLD TOURING CAR CHAMPIONSHIP” contendo uma leve inclinação nas pontas. Todos os adereços usados nas fontes contribuem para aumentar a ideia de movimento veloz que a marca se propõe.

Logotipos da F1 e da WTCC

Notei uma marca de categorias de automobilismo que se contrapõe a esta tendência (fontes italicadas e adereços). É a da Porsche Cup. Ela mantém o logotipo original da Porsche, e o texto “GT3 Cup Challente”. É o logotipo com a tipografia mais sóbria que notei  durante minha pesquisa. Apesar disso, ainda traz uma idéia de movimento ao alongar a fonte da sua marca. É mais discreto que as demais, porém mantém o mesmo conceito.

Em se tratando de logotipo de equipes de corrida, a idéia não é muito diferente. O que notei a mais na identidade visual das escuderias é que, principalmente em categorias ultra tecnológicas, como a Fórmula 1, procura-se passar o conceito Hi-Tech usando efeitos e tons metálicos em suas marcas. Ainda na Fórmula 1, acho interessante como marcas que não eram ligadas a automobilismo e acabaram posteriormente fundando uma equipe adequaram sua identidade visual para seguir uma tendência, como a Benetton. Falo isso da Fórmula 1 porque foi onde mais notei este intercâmbio.

Fórmula 1

Nesta parte, me atentarei mais aos logos de Fórmula 1 pois são os mais famosos e que receberam um cuidado muito maior quando ao design, devido a altíssima exposição que tem e terão. Não que equipes de outras categorias não tiveram este cuidado, mas na Fórmula 1 notamos que, graças aos altíssimos investimentos, o cuidado com o design parece maior. Nas demais, isso varia entre logos excelentes, principalmente em equipes grandes que brigam pelo título, que tiveram um investimento pesado em todos os setores, e logos que parecem que não houve um estudo tão aprofundado, presente principalmente em equipes pequenas com baixo orçamento, que a forçou a priorizar o desenvolvimento do carro e não da marca.

Marussia (ex Virgin)

Dentre as equipes atuais, uma que o design me agrada muito é o da Marussia, que até um tempo atrás se chamava Virgin. Ela pertencia ao Grupo Virgin, do bilionário britânico Richard Branson. O grupo tem lojas, gravadoras, uma companhia aérea, está investindo em turismo espacial e teve uma equipe de Fórmula 1, que agora é administrada pela Marussia. Como falamos de automobilismo, vou me atentar apenas a adaptação da marca para dentro das pistas. Preservando uma característica comum em todos os segmentos do grupo Virgin, ela manteve o escrito da marca, mas foi incorporada ao símbolo VR (Virgin Racing). Este símbolo não apresenta a característica mais comum em logos de corrida, que é a fonte italicada, mas a idéia de movimento rápido está presente nas linhas que se seguem após a letra V e a letra R que formam o símbolo. O fato do V e do R estarem ligados, um ao outro, dá um dinamismo e rapidez ao símbolo.

Logotipo Virgin RacingLogotipo da equipe Virgin Racing mantém o logo do Grupo Virgin

Uma nova marca foi projetada depois que a Marussia entrou na jogada, injetando dinheiro na antiga equipe Virgin. O VR saiu de cena. Marussia é uma empresa automobilistica russa, que faz carros esportivos. Ao entrar na Fórmula 1 fica claro o objetivo dela de ampliar a abrangência de sua marca. Tanto que, para o logotipo da equipe de corrida ela manteve a mesma fonte e o mesmo símbolo da empresa Marussia. Porém, era necessário adicionar uma agressividade ao logo, e algo que o caracteriza-se como a equipe de corrida, não apenas como a fábrica de carros. Para tal, usou-se linhas de movimento no símbolo, dando a sensação que está avançando muito rápido e rasgando o ar, como uma asa. A fonte foi mantida, já que o itálico e o corte na letra ‘R’ já transmitiam idéias que eram interessantes para a F1. A letra M “fechada” do símbolo pode também ser associada a um bico de um carro.

A esquerda, logotipo da fábrica de carros Marussia. A direita, o logotipo que será usado na F1

Ferrari

Uma outra marca que possuí diversos produtos fora da Fórmula 1 é a Ferrari. A mais conhecida das equipes é também a que está lá há mais tempo: desde a primeira corrida, em 1950. Porém ela fabrica carros velozes e ultra modernos desde 1929. Atualmente, a Ferrari vende outros produtos com a sua marca, como perfumes e calçados. No entanto, é dentro do mundo dos automóveis que ela se torna um dos objetos mais desejados do planeta. Ainda assim, houve uma adequação de seu logo. O cavalo rampante, tradicional na equipe e traz a idéia de vitória e força sempre está presente, mas, fora da F1 eles usam uma tipografia mais tradicional, serifada e séria. O movimento está marcado pelo rastro deixado no alongamento da letra F, mas também procura expressar valores de elegância, seriedade e status elevado que o consumidor da marca possuí. Já para a Scuderia Ferrari, que é a equipe de automobilismo, a empresa aproveitou todas as características já descritas como tendência neste meio: fontes alongadas, projetadas para frente e linhas e adereços que remetem a idéia de movimento veloz.

A esquerda o logotipo da marca Ferrari. A direita, vemos o logo da Scuderia Ferrari – divisão de automobilismo da empresa.

Red Bull e Toro Rosso

A Red Bull, marca de energéticos, entrou na Fórmula 1 em 2005 e em pouco tempo se tornou uma equipe vencedora. O logotipo já trazia a força e o movimento dos touros vermelhos. A fonte do logo “Red Bull” tem uma legibilidade fácil e clara, mas sozinha não transmite a força e vitalidade que a merca deseja. Estas sensações estão bem claras em seu símbolo: o touro vermelho, com seu corpo projetado para frente, traz o conceito de força, movimento rápido e virilidade. Tudo isso foi mantido para a marca da equipe de corrida. Porém foi adicionada a palavra “racing” e linhas de movimento. A tipografia é alongada e tecnológica, e o rastro deixado pela letra G reforça o movimento do logotipo. Três linhas foram usadas, dando velocidade e, para deixar bem claro que se trata de uma marca relacionada a esporte a motor, um quadriculado característico da bandeira que indica a vitória.

A direita vemos o logo da marca Red Bull, a esquerda o logo da equipe Red Bull Racing.

A Red Bull tem uma segunda equipe disputando a Fórmula 1, a Toro Rosso. Foi mantido os touros e a fonte, mas adereços que dão movimento a marca foram adicionados diretamente na tipografia. Apesar de possuírem marcas diferentes, as duas equipes  fazem parte de um mesmo grupo.

Toro Rosso – igual mas diferente.

Outras equipes

É comum ver que isso se segue aos demais logos de equipes de corrida: fontes alongadas e inclinadas, acompanhadas por linhas que dão movimento aos símbolos. Alguns mais discretos, como o das inglesas Williams e McLaren, outros nem tanto, como o da Force India.

No logo da McLaren o movimento da letra M impulsiona e da velocidade ao resto da marca. As cores metálicas trazem a idéia de tecnologia.

A Williams usa uma fonte sobria, mas mantém o conceito de velocidade e movimento em seu símbolo.

No logo da Force India temos o movimento da bandeira da Índia, que forma a letra F e o movimento de velocidade, presente na inclinação da fonte.

A Caterham já possui equipes em diversas categorias de automobilismo, e já possuía um logotipo próprio. No entanto, para a sua equipe de F1 em 2012, faz uma marca exclusiva e diferente . Ao comparar com a marca que usava antes, nota-se que a da Caterham F1 ficou muito mais arrojada, tecnológica e veloz.

À esquerda, o logo da fábrica de carros de corrida Caterham e do lado direito, o logo da equipe Caterham de F1

A Mercedes é outra marca que não está presente só na F1. Para o logo da sua equipe de automobilismo, usou uma fonte sem serifa, mais clean e sóbria. As cores metálicas transmitem o conceito tecnológico. Diferente de outras equipes, não usou uma fonte inclinada e cheia de movimento. Mas o conceito se mantém, ainda que bem discreto, na grafia do GP que compões seu nome e marca.

Logo da Mercedes-Benz à esquerda e o logo da equipe Mercedes GP à direita.

Das equipes atuais, notei três que fogem à esta tendência. Um é o da Lotus F1 Team, mas ao olhar para ele percebo que foi um dos poucos que preocupou-se em não alterar as características que a marca Lotus tem fora da Fórmula 1. Foi mantido a tipografia, alterando apenas as cores.

Logotipo da Lotus F1 Team

No da HRT, a marca parece ter um apelo muito mais a tecnologia do que ao movimento e velocidade. Ao olha-la, a primeira coisa que me veio a cabeça foi o logotipo do Tron, que traz essa idéia super tecnológica. Olhando ela de outro ponto de vista, pode representar uma pista de corrida que forma o HRT.

HRT tem um logotipo mais tecnológico do que veloz.

Agora, a marca que me pareceu ser a mais “perdida” de todas é a da Sauber F1. Não vi as características de movimento e velocidade, comuns na grande maioria do logo, nem consegui identificar o conceito que ela traz. Talvez queira representar aquelas medalhas que os carros usam, como o da Mercedes-Benz. No meio de características tão marcantes e um conceito que parece comum em todos os logos, este foi o que se destacou por não representar nada disso e não seguir esta tendência.

Logotipo da Sauber.

Acelera Ayrton!

Não podia me esquecer do melhor dentre os que já pilotaram um Fórmula 1: Ayrton Senna. A marca Senna também foi projetada mantendo as características de velocidade, tão marcantes em tudo que se refere a corrida. O que ela representa, porém, é uma curva que forma a letra S, comum em quase todos as pistas de corrida do mundo. A representação da curva em S traz um rastro de velocidade, como se algo tivesse passado por ali muito rápido. É um símbolo bem marcante e que reconhecido por todo mundo que acompanha corridas de automóvel.

S do Senna. A direita, o logotipo. A esquerda, a curva S do circuito de Interlagos.

Concluindo…

Projetar um logo nunca foi uma tarefa fácil! É preciso muito estudo para transmitir, de maneira clara e usando poucos símbolos, conceitos abstratos. Para isso, temos que fazer pesquisas aprofundadas em diversas áreas, entrevistar pessoas e descobrir quais sinais são comuns para que o público possa identificar determinados valores. Quando falamos de corridas, queremos transmitir, acima de tudo, a idéia de velocidade. E vimos que as linhas que caracterizam esta sensação estão presentes na natureza, tornando algo comum no pensamento coletivo. Aliado a isto, as marcas procuram agregar ideais tecnológicos e de competição, o que caracteriza não apenas a corrida, mas a competição entre os carros mais tecnológicos do planeta.

Trata-se de uma tendência muito forte, e são raros os casos em que ela é quebrada. Muito estudo é necessário para o designer conseguir criar identidades fortes e marcantes. Apesar de exigir muito suor, eu acredito que criar identidades visuais é uma das coisas mais divertidas no mundo do design!

Até a próxima! ;)

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Leandro Lima

Leandro Lima

Designer, palestrante, nerd e co-fundador da PopUp junto com a Dani Guerrato. É apaixonado por criatividade e trabalha, principalmente, com identidade visual e projetos para web, se responsabilizando pelo design e pelo desenvolvimento de projetos da PopUp. Adora jogar xadrez, é fã do Rubens Barrichello e acredita que o universo tem 10 ou 11 dimensões.

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  • William Roger

    Show de bola adorei a matéria aprendo muito com vcs! que Deus abençoe cada dia mais a vida de vcs e retribua o tempo que vcs dedicam a compartilhar o seus conhecimentos com pessoas que querem aprender mais também! valeu sou Fã Numero 1 de vcs Leandro e Dani!!!

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