Leandro Lima

Design Feio

Por | Comentários: 1

Existem produtos bonitos e feios que usamos no nosso dia-a-dia. Será que a estética é um fator decisivo entre as pessoas gostarem mais de um produto do que de outro? Design bonito é sinônimo de design bom? Neste artigo vou falar um pouco sobre isso.

Comecei a mexer em programas gráficos querendo fazer sites lindos. Eu desenhava interfaces meio que ao acaso torcendo para que elas ficassem bonitas. Este era o objetivo: ter o layout mais bonito da internet!

Anos mais tarde comecei a estudar design e não apenas ferramentas. Aprendi sobre tipografia, cores, composição, proporção, alinhamento, grids, layout… E comecei a combinar toda esta teoria para que, no final, minhas interfaces tivessem o tão sonhado efeito wow!

Durante meus estudos fui apresentado ao documentário “Helvética” (2007), que conta a história de uma das famílias tipográficas mais famosas do mundo. Logo no inicio do filme o designer italiano Massimo Vignelli diz: “A vida do designer é uma vida de luta contra a feiura. Como um médico luta contra uma doença. Para nós, há uma doença visual em nosso entorno, e o que tentamos fazer é curar esta doença com design”

Helvetica (2007) – O documentário é bem legal! Assiste lá. =)

Pela primeira vez comecei a trabalhar com uma missão: lutar contra a feiura como um médico luta contra uma doença.

Com o passar dos anos, com a minha evolução profissional e novos aprendizados, esta missão mudou. E continua mudando até hoje. Fazer design, pra mim, deixou de ser uma luta contra a feiura. Passou a ser sobre resolver problemas de um produto e de seus usuários, e isso vai além de problemas da interface.

Porém, ainda é comum sessões de feedback onde a estética é o ponto central da discussão. Mas será que a beleza faz tanta diferença assim?

O que é beleza, afinal?

Beleza é uma característica de uma pessoa, lugar, animal, ideia ou objeto que oferece uma experiência perceptual de prazer ou satisfação.

Estética é o ramo da filosofia que estuda a beleza. Os estudos de estética vem desde a Antiguidade. A essência do belo seria alcançada com algo bom e que trazia valores morais. O belo, o verdadeiro e o bom formavam uma unidade.

Durante a história não faltaram tentativas de quantificar a beleza. Seja pela ordem, simetria, proporção, harmonia. No entanto, apesar destas serem características encontradas em objetos belos, não é possível criar um algo bonito apenas adicionando simetria, proporção e harmonia. O julgamento de beleza não depende de provas quantificáveis e inquestionáveis. Ela está ligado a percepção gerada. Isso significa que por mais que um designer siga todas essas regras para criar um layout, não existe garantia nenhuma que ela será percebida como bela. Hoje sabemos que o julgamento da beleza é pessoal e não segue nenhuma lógica.

A estética na experiência do usuário

Parte da experiência do usuário está ligada em como que a pessoa que usa percebe o produto. Se beleza é a experiência perceptual de prazer não é errado assumir que um produto bonito tem uma chance maior de ser percebido como bom. Estudos de design emocional falam muito sobre esta percepção irracional da beleza. O problema: a percepção de beleza não é universal e o que é bonito para um grupo pode ser feio para outro. Falar que vai projetar uma interface bonita sem saber quem usará esta interface significa colocar percepções pessoais à frente do que o seu público pensa. Além disso, depois de perceber o produto a pessoa precisa usá-lo. E quando ela começa a usar o produto no dia-a-dia, a percepção inicial não faz mais tanta diferença assim.


Australia Street, III — Newton Grafitti

Ter uma interface bonita é realmente fundamental para o um produto?

Antes de sair na caça para embelezar o mundo, é importante pensar se causar prazer ao usuário é realmente um ganho no uso daquele produto. Coisas atraentes são legais. Mas ter um problema resolvido é melhor ainda. E interfaces que de fato resolvem problemas não precisam ser atraentes ou sequer percebidas.

Pense nas várias interfaces com que uma pessoa se relaciona no dia-a-dia. As teclas de um teclado, os botões de uma cafeteira, o painel de um microondas, o layout da rede social favorita, o leitor de emails, o site de notícias, entre outras… quais destas interfaces são percebidas como belas a ponto de causar prazer a quem usa? A maioria delas passa despercebida pra pessoa que está usando, e isso é um sinal de uma interface ótima.


Microwave — Chris Ballance

Mais importante do que saber se o usuário acha o produto bonito ou não é saber o que ele de fato faz no produto. Contexto de uso, número de erros, conversões, tempo de interações, quantidade de cliques. Tudo isso é detectável sem a necessidade de um julgamento subjetivo e pode fazer muito mais diferença na experiência de quem usa um produto do que o fato dele ser bonito ou não.

Interface familiar

A percepção estética de algo também pode estar relacionado a familiaridade que a pessoa tem com os elementos gráficos da interface. A bagagem cultural do usuário conta muito na hora do julgamento estético.

Por isso, projetar uma interface que vai ser percebida como bonita por um grupo formado por outros designers que, na maioria das vezes, compartilham das mesmas referências e conceitos é relativamente simples. Tanto que o que não falta na internet são redesigns maravilhosos de sites famosos.

Designers passam uma boa parte do tempo rodeado por inspirações, arte, fotografia. Parte do trabalho é buscar por referências que o tiram da zona de conforto. Mas, como é bom sempre lembrar, o designer não é o usuário.

A dificuldade real do trabalho de um designer é comunicar uma ideia complexa da maneira mais simples possível, que empodere pessoas a tomarem decisões e que resolvam os problemas dos consumidores e do produto.

O que é familiar para o seu usuário?

Uma pessoa que passa o dia olhando e comparando dados em uma planilha pode ter outras referências e outras familiaridades. Pra ela, talvez, aquela interface clean, com um contraste reduzido e cheia de espaço em branco pode ser horrível porque força ela a mudar a maneira com que ela interage com o conteúdo. E isso pode gerar stress… não por excesso de informação, mas por ser um ambiente tão novo que força ele a pensar em maneiras diferentes de fazer algo que era simples antes. Faz sentido, para o seu produto e usuário, que ele aprenda tantas ações novas? Entender o que é familiar para quem usa um produto e projetar interações que reutilizam elementos já conhecidos pode ser um atalho gigante para a aceitação de algo novo.

Colocar o usuário no centro de tudo o que designer faz pode não necessariamente levar a interface mais bonita, mas com certeza vai levar àquela que resolve mais problemas!

Se liga ai então que é hora da revisão!

É impossível medir a qualidade estética de um projeto. Percepção de beleza é subjetiva, cultural e individual. É possível quantificar cliques, interações, erros, conversões, abandonos. Essas métricas podem contar muito mais sobre o comportamento do usuário e são mais úteis pra dizer se um projeto é um sucesso ou não.

A função da interface não é ser bela e nem chamar atenção. É se comunicar com o usuário. Interface bonita não melhora um projeto que já nasceu com uma usabilidade ruim.

Continuem bonitos! Vocês todos são…

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Leandro Lima

Leandro Lima

Designer, palestrante, nerd e co-fundador da PopUp junto com a Dani Guerrato. É apaixonado por criatividade e tecnologia. Trabalha com UX Design e Design de Interfaces há mais de 8 anos. Adora jogar xadrez, é fã do Rubens Barrichello e acredita que o universo tem 10 ou 11 dimensões.

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  • Gustavo M T Borges

    Ótimo post, curi bastante a forma didática que usou pra explicar sobre UX.

Postamos coisas legais aqui


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