Leandro Lima

Design, hipótese e experimentação

Por | Comentários: 1

Neste artigo vamos discutir como elaborar uma hipótese para o seu projeto de design e como essa estratégia pode ajudar a resolver problemas do produto e dos usuários de maneira objetiva e mensurável.

Mais um dia na agência Designers Topster

Imagine que você recebeu um novo briefing. Um fotógrafo, vamos chamar ele de Fábio Fotinhas, contratou a sua equipe para fazer um redesign do portfólio dele. O objetivo principal é aumentar o número de orçamentos. Seu colega chega na reunião com o seguinte discurso:

“Vamos usar fotos gigantes para deixar o site mais bonito e gerar um fator WOW, afinal, todas as pessoas que navegam em um site bonito ficam mais felizes.”

O que existe de errado com este cenário?

A teoria do seu caro colega é impossível de confirmar, negar ou testar. Vamos analisar parte por parte.

Bonito

Não existe uma definição do que é “bonito”. Beleza é subjetivo! Eu posso navegar em um site e achar ele o projeto mais lindo do mundo enquanto outra pessoa pode navegar exatamente no mesmo site e não se impressionar.

WOW

“Fator WOW” também não é nada mensurável. É bem subjetivo, na realidade. Eu digo “WOW” toda vez que escuto solos de guitarra. Alguém que não é fã de guitarras pode não sentir a mesma coisa que eu sinto. Além disso, até que ponto gerar “WOW” é de fato importante para o projeto? Existem diversas situações em que não é necessário criar um encantamento para o usuário, mas apenas guiá-lo de forma rápida para que ele encontre a informação que procura.

Felicidade

Por último, “ficar mais feliz” também é subjetivo. Podemos entrar em uma discussão bem existencial aqui para tentar definir a felicidade. Mas, a verdade é que cada pessoa irá expressar felicidade de formas diferentes e isso não vai ser detectável apenas mostrando a elas um site bonito.

O que beleza, felicidade e wow tem em comum?

Estas três coisas são construções abstratas. O mesmo vale para facilidade de uso, engajamento, intuição, etc. Todas estas coisas não podem ser medidas se não tiverem uma definição operacional.

Na prática isso significa que você e sua equipe precisam primeiro concordar sobre qual é o conceito de felicidade para os usuários daquele produto ou site e quais ações do usuário indicam que ele está feliz. No site do Fábio Fotinhas, por exemplo, você e sua equipe podem concordar que usuários felizes solicitam mais orçamentos. Pronto! Agora vocês tem um número concreto para medir.

Com o vocabulário definido é só colocar os post-its na parede e começar a fazer uns wireframes, né não? Er… não é bem assim. Precisamos de uma fundamentação melhor para o projeto do nosso amigo Fábio. Que problema estamos querendo resolver? Por quê? Como? Quando? Todas estas perguntas podem ser respondidas criando uma (boa) hipótese.

O que é uma hipótese, afinal?

Uma hipótese é uma suposição do porque algo acontece ou de como um problema será resolvido. Uma hipótese científica é uma premissa dentro de uma determinada teoria que pode ser observada (ou não) por meio de experimentação.

Ciência? Este não era um artigo de UX?

O método científico está aí para todo mundo, migxs. A vantagem desta metodologia é que ela elimina a subjetividade do processo criativo. Se todo mundo concorda antes em o que fazer e como medir fica muito mais fácil de discutir o projeto sem ter “eu gostei”, “porque eu quero”, “porque eu to pagando”, “porque o papagaio do meu vizinho gosta de bolinhas laranjas”… Todas as decisões serão tomadas com dados concretos e mensuráveis.

Criar uma hipótese ajuda muito na comunicação de todos os envolvidos em um projeto. Ela é uma importante ferramenta para documentar o que está sendo feito, como está sendo feito, que problema está sendo resolvido e como medir sucesso.

A hipótese também não precisa ser eterna. Ela pode ser mudada conforme você coleta mais informações sobre o público alvo e o produto. Além disso, toda hipótese pode deve ter uma maneira de ser testada! Se não é possível confirmar ou negar uma hipótese ela não vai te dar pistas sobre qual o melhor caminho para seguir.

Respondendo perguntas…


imagem Brick 101

Para facilitar o entendimento de toda a equipe, quando estamos trabalhando em um projeto de design é importante que a sua hipótese responda algumas perguntas. Isso é fundamental para consultas futuras, para deixar claro quais foram os problemas encontrados, quais as soluções propostas e quais as métricas de sucesso.

Aqui estão algumas perguntas que você e sua equipe devem ter em mente na hora de criar uma hipótese:

  • Qual é o problema que está sendo resolvido?
  • Qual é o benefício para o usuário de ter este problema resolvido?
  • Qual é o benefício para o produto em resolver este problema?
  • Qual é a solução proposta? Como o problema será resolvido?
  • Como vamos medir o sucesso do projeto?
  • Que evidências você possui para sustentar esta hipótese (pesquisa, estudo, observação, artigos, teoria, etc)?

Uma hipótese para chamar de sua!

Pesquisa feita, dados levantados, problema identificado, solução em mente… agora é hora de botar tudo no papel (ou na tela do computador) e escrever uma bela hipótese para guiar a equipe para todo mundo colocar a mão na massa.

Hipótese para o portfólio do Fábio Fotinhas:
“De acordo com uma pesquisa realizada com usuários, foi identificado que as pessoas que acessam o site atual do Fábio Fotinhas não entram em contato porque tem dificuldades para encontrar o botão para pedir um orçamento.

Para solucionar este problema será colocado uma chamada para ação em posição fixa no canto superior direito da tela.

Para confirmar a proposta, será observado se existe um aumento cliques no botão de pedir um orçamento e um aumento no número de orçamentos recebidos.

Isso beneficiará o Fábio porque aumentará o número de orçamentos recebidos por ele e os usuários porque tornará mais fácil entrar em contato com o fotógrafo.”

Por que é uma boa hipótese?

A hipótese deixa clara qual é o problema que está sendo solucionado e como a solução deste problema beneficia os usuários e o produto.

Além disso, ela explica para todos os envolvidos o que o designer está planejando e quais variáveis que estão sendo observadas. Com essa informação clara é possível dizer “isso funciona” ou “isso não funciona” sem a subjetividade de um julgamento pessoal. Isso significa que as decisões serão baseadas em dados concretos, não em “site mais bonito” ou em “Fator WOW”.

Se liga aí então que é hora da revisão!

  • Uma hipótese não é uma mera pontuação de fatos observados. A hipótese determina qual é o problema identificado e propõe uma solução testável.
  • Uma hipótese precisa ter maneiras de medir e confirmar. Se não é possível testar a hipótese toda a discussão será baseada em especulações.
  • Colete fontes que ajudem a sustentar sua idéia. Pode ser observação de usuários interagindo com o site, pesquisas de usabilidade, teorias de Design ou até mesmo em outras hipóteses do passado! Lembre-se de deixar claro da onde surgiu aquela solução.
  • Evite construções abstratas. Se você afirmar que quer fazer usuários mais felizes, defina o que é felicidade e quais ações do usuário indicam que ele está feliz.

Este é o primeiro de uma pequena série de artigos. Nos próximos irei falar sobre possíveis viéses que o designer / pesquisador pode ter na hora de elaborar uma hipótese e maneiras de testá-la.

E você? Qual é o seu processo para validar o seu design? Conta aí!

Imagem da capa: Clement127

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Leandro Lima

Leandro Lima

Designer, palestrante, nerd e co-fundador da PopUp junto com a Dani Guerrato. É apaixonado por criatividade e tecnologia. Trabalha com UX Design e Design de Interfaces há mais de 8 anos. Adora jogar xadrez, é fã do Rubens Barrichello e acredita que o universo tem 10 ou 11 dimensões.

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  • Junior Silva

    Muito da hora Leandro,parabéns ótimo artigo!

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