Leandro Lima

Design, usabilidade e bem estar social!

Por | Comentários: 2

Uma vez em um shopping notei um cadeirante com dificuldades para subir de andar. O elevador ficava distante da onde ele estava, e a escada rolante presente tinha degraus estreitos. Com muito esforço, ele se equilibrou no degrau e chegou o andar de cima. Lógico que reclamou muito. Um mal-estar que poderia ser resolvido de maneira simples: colocando rampas no local.

Design está em tudo. Mas nem tudo é um bom design. Todo designer concorda com esta frase, mas… você consegue me dizer o que é design? Tem muito designer que não sabe responder ou definir o que faz. É um termo com uma definição bem complexa, que eu tentarei sintetizar ao máximo. Talvez em uma palavra: facilitador. Sim, o  design é um facilitador na nossa vida. Fazer design significa criar um projeto (carro, produto, site, cartaz) com o objetivo de facilitar as ações e relacionamentos do usuário com o mundo. Muitas vezes o projeto necessita apenas de um aperfeiçoamento do que já existe. Em outros casos, deve-se pensar em algo totalmente novo, criando uma outra maneira do público pensar e agir. Neste caso, cria-se uma nova ação, um novo verbo, uma nova tendência.

Onde está o Design. | fonte: Cartilha para Quem Quer Comprar Design
Onde está o Design. | fonte: Cartilha para Quem Quer Comprar Design

Todos os projetos de design visam criar facilidades e confortos. Um site, por exemplo, deve tornar fácil, confortável e intuitiva a navegação na web e a interação entre diversos usuários da rede. Um carro procura deixar o deslocamento de pessoas o mais cômodo possível. Um produto visa facilitar as ações que as pessoas fazem no seu dia-a-dia. Desde os mais simples atos, como abrir uma maçaneta ou pintar um desenho, até os mais complexos, o design procura deixar mais fácil.

Precisa de sensibilidade, criatividade, saber adiantar problemas, conseguir prever ações que um usuário pode fazer, e como o levar a tomar a melhor decisão. Enfim, fazer design não é fácil. Mas tem gente que acredita que é. E essa gente acha que fazer design é só ter uma ideiazinha genial em algum momento que estará sendo um bom designer. Não, não estará.

Não é difícil listar uma série de produtos que interagimos em nosso cotidiano que poderiam ser melhores. Você com certeza já parou na frente de algo e pensou “Mas, cáspita… como eu faço pra usar isso?”. Um microondas, que tem botões específicos para preparar todas as comidas do mundo, menos a sua (e ai você descobre que aquela que você quer fazer pode ficar pronta apertando qualquer botão), uma placa de localização dentro de um mercado que não consegue informar direito a qual produto ou sessão ela se refere, um mapa de transporte público com letras ilegíveis (principalmente se você é míope), um QR Code em um lugar mal planejado, um livro com um sumário impossível de ser interpretado, um site com uma navegação mal feita que te faz ficar rodando em círculos… tudo isso é o reflexo de um design mal planejado, que, ao invés de facilitar e informar, dificulta e toma mais tempo! Acaba com a paciência e faz com que a gente julgue um produto, ou uma marca, como ruim.


Legal, qual botão eu aperto para ferver o leite? | Créditos: DiselDemon

Usabilidade refere-se ao uso amigável de algo. Projetar levando em conta a usabilidade, é levar em consideração todas as necessidades básicas do nosso usuário. Dizer que a ergonomia, a acessibilidade, a usabilidade foi pensada ao elaborar algo significa que observamos todos os pontos que podem tornar o produto mais confortável e fácil de usar para todas as pessoas, independente de suas necessidades especiais. E o mais importante: sem diminuir a experiência que o usuário pode ter ao interagir com o seu produto.

Muita gente desconhece o uso da ergonomia dentro do design. Talvez pelo fato do termo ser pouco usado pela mídia para se referir ao nível de conforto de um produto. Acham que só móveis e cadeiras são ergonômicas. Mas não. Ergonomia está em todos os cuidados que tomamos para otimizar o bem-estar humano ao interagir com o mundo (de maneira virtual ou não).

Por serem conceitos muito complexos alguns designers tem dificuldade em entender como a ergonomia e acessibilidade são fundamentais para qualquer projeto. Mas alguns cuidados básicos com a usabilidade já podem ajudar seu projeto a ser muito mais abrangente.

O bom design é intuitivo e fácil de se usar, independentemente de quem use.

Na hora de criarmos o design para a web, por exemplo: As principais informações do menu de seu site estão fáceis de ser encontradas? O usuário é informado de qual sessão ele se encontra? Os botões parecem botões? A fonte está em um tamanho legal para a leitura? O contraste do texto com o background está bacana? Quando acessado de um celular, o texto fica em tamanhos otimizados? O site se adapta para uma melhor experiência? Os links são de um tamanho bom o suficiente para o usuário tocar neles com a ponta dos dedos?

Na elaboração de um projeto de design gráfico, cuidados parecidos devem ser tomados. Os símbolos usados tem seus significados facilmente compreendidos pelo público alvo? O tamanho dos elementos é otimizado para ser identificado a grandes distâncias? E para míopes? E caso algum cego vá interagir com seu panfleto, como ele irá obter as informações que a peça gráfica pretende transmitir? Pense que tomar este tipo de cuidado pode ser a diferença entre o escorregão de um idoso porque não conseguiu identificar aquela placa que dizia “piso molhado” e ele tomar a decisão correta de evitar caminhar por aquele lugar pois foi informado com antecedência que o chão estava escorregadio!


Exemplo de uma boa interface: Não resta dúvidas sobre o que eu devo fazer caso veja este sinal | Créditos: Toms BauÄ£is

Fazer uma apresentação gráfica bem organizada, ou um produto levando em consideração a ergonomia o torna mais atrativo. Se estiver estéticamente bonito então, você acertou em cheio! Estes cuidados fazem com que a interação do usuário com o seu produto seja mais eficiente e divertida. E isso vai fazer com que o usuário tenha mais paciência de ler o seu conteúdo para se informar sobre as melhores maneiras de usa-lo! Isso aumenta a satisfação dele com o seu produto (carro, site, ambiente) e, por consequência, com a sua marca.

Para medir o grau de usabilidade de um produto, devemos fazer os seguintes questionamentos:
– Aprendizagem: o quão fácil e rápido é para o usuário aprender as habilidades básicas para interagir com o produto.
– Eficiência: ao aprender a usar, com qual velocidade ele irá obter as informações e chegar nos objetivos?
– Memorização: Ao reutilizar seu produto, o usuário consegue refazer o que aprendeu sem dificuldades?
– Erros: Quantos erros o usuário comete neste processo? Algum destes erros é crucial? Caso ele cometa um erro, é fácil se recuperar dele?
– Satisfação: O usuário se sentiu bem ao utilizar seu produto? Ele utilizaria novamente?

Ninguém gosta de perder tempo tendo que reaprender a usar um controle remoto, ou a navegar pelos menus de um jogo de videogame. É muito chato quando queremos fazer algo simples, como programar a nossa televisão para ligar/desligar em um determinado horário e não conseguimos. Nos deixa bravos, traz uma sensação ruim, como se não fôssemos competente o suficiente para fazer aquela ação! É claro que, para diversos produtos, uma linha de aprendizagem é necessária. Um jogo novo, por exemplo, ou um celular mais moderno, com um sistema operacional inédito. Cabe ao designer fazer com que o tempo de aprendizagem seja o menor possível, e que as futuras novas interações que aquele aparelho, game, etc sejam intuitivas o suficiente para não diminuir a imersão que ele está tendo ao usar aquele produto. Não é extremamente chato quando você está completamente entretido navegando em um site e tem que parar tudo para ler um tutorial quando quer aprender a fazer uma nova ação?


Usabilidade Fail: ele só queria ir ao banheiro, por que dificultar? | Créditos: soopahgrover

Deficientes físicos também podem brincar

É muito fácil para um designer que não é portador de necessidades especiais não se lembrar de todos os detalhes para facilitar a vida de um deficiente físico, justamente pelo fato dele não necessitar os mesmos cuidados. E alguns pontos acabam passando batidos. Nós não devemos nos esquecer que os portadores de alguma deficiência tem as mesmas vontades de um não-deficiente. A única coisa que muda é a maneira com que ele irá interagir. Prestar atenção em detalhes irá multiplicar por muito a experiência que ele terá ao usar algum produto. Coisas simples, como usar rampas ao invés de escadas rolantes.

Mas chega a ser absurdo notar como não estamos preparados para atender alguns casos. Uma vez, conversando com uma pessoa cega, ela me disse que uma das maiores dificuldades da vida dela era atravessar a rua, principalmente em avenidas movimentadas. Ele trabalhava na Av. Paulista e nenhum dos semáforos de lá tem um sinal sonoro para alerta-lo quando fica vermelho ou verde. Um ato corriqueiro e comum para alguém que não tem deficiência visual, como atravessar a rua, torna-se algo arriscado e perigoso para um cego! Outra coisa que me disse enquanto conversávamos era a falta de padrão existente em interruptores de luz. Como ele era cego total, sem percepção de luz, ele não sabia quando as lâmpadas de algum lugar estavam acesas ou apagadas. Em sua casa, onde convive com outras pessoas que não são cegas, ele decorou as posições de todos os interruptores, mas quando está em outro lugar, tem que ir puramente no chute.

Tudo isso poderia ser evitado se todos os projetos tivessem um designer com conhecimentos sólidos em ergonomia envolvido. Design está em tudo, lembra do início deste artigo?

Calçadas com guias rebaixadas: uma atitude simples que facilita a vida de todo cadeirante | Créditos: FaceMePLS
Calçadas com guias rebaixadas: uma atitude simples que facilita a vida de todo cadeirante | Créditos: FaceMePLS

Iniciativas que facilitam a vida e valem a pena serem conhecidas!

Existem diversas iniciativas excelentes que levam em conta todas as necessidades especiais e facilitam a vida de todos os usuários. Quem anda de metrô, por exemplo, sabe das marcações existentes no chão para melhorar o deslocamento de pessoas sem visão que usam uma bengala. Essas marcações indicam quando elas devem parar para mudar de direção e caminhos que elas devem seguir para chegar até as catracas ou bilheterias.

Uma outra que me chamou muita atenção foi o ColorADD, um sistema de identificação de cores para pessoas daltônicas criada pelo designer português Miguel Neiva. Visando a inclusão social, a qualidade de vida e uma maior segurança e desempenho no trabalho, em 2000 ele criou símbolos para representar as cores.

ColorADD: Sistema de símbolo para daltônicos identificarer as cores
ColorADD

Estes símbolos visam facilitar o reconhecimento das cores nos lugares onde isso é necessário como, por exemplo, em um sinal de trânsito. Alguns graus de daltonismo não conseguem identificar a cor de cada uma das luzes. Se além das cores que caracterizam cada estágio do semáforo for usado também os símbolos criados por Miguel, seria muito mais fácil para um daltônico saber que ação ele tem que tomar com seu carro. Simples e genial! Diminuiria em 100% o risco de um daltônico causar um acidente de trânsito por não reconhecer a cor que estava sendo sinalizada.

Exemplo de uso do ColorADD em semáforos
Exemplo de uso do ColorADD em semáforos

Outro exemplo é em seringas de farmácia. Em vários casos, cada tipo de medicamento é indicado por uma cor de etiqueta na seringa. O uso do ColorADD poderia facilitar a vida de enfermeiros daltônicos.

Utilizar estes símbolos na educação de crianças daltônicas pode ajuda-lo no futuro e na interação com crianças não daltônicas. Existem casos de crianças que são taxadas como burras pelos seus colegas e acabam sofrendo bullying por não saberem identificar as cores. Sinalizar lápis de cor já ajudaria muito a diminuir isso!

Uma atitude simples e fácil, sem grandes impactos para não portadores da deficiência e que facilitaria muito a vida de quem tem daltonismo. Deixaria o design do seu produto mais universal, onde todos poderiam usufruir dele sem perda na experiência do usuário.

ColorADD no UNO
Até jogar UNO ficaria mais fácil!

E pra finalizar

Você conhece algum projeto de design que foi levado em consideração a usabilidade? Ou tem sugestões para melhorias ergonômicas em projetos? Envie para gente! Pretendo mostrar, nos próximos posts, alguns projetos ótimos que levaram isso em consideração! Desde projetos gráficos até projetos de desenvolvimento web.

Todos os projetos do mundo tem design. E, quando o design é bem feito, promove a inclusão e o bem estar social. Enquanto um mal projetado evidencia uma deficiência.  Deficiências que não são apenas físicas! Um usuário deve conseguir navegar em seu site, por exemplo, independentemente da velocidade da sua conexão, do tamanho do seu monitor ou da sua dificuldade em enxergar. Nós, designers, devemos ter consciência da nossa responsabilidade social, e o poder de gerar qualidade de vida e incluir pessoas em um mesmo grupo, independente de suas diferenças!

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Leandro Lima

Leandro Lima

Designer, palestrante, nerd e co-fundador da PopUp junto com a Dani Guerrato. É apaixonado por criatividade e tecnologia. Trabalha com UX Design e Design de Interfaces há mais de 8 anos. Adora jogar xadrez, é fã do Rubens Barrichello e acredita que o universo tem 10 ou 11 dimensões.

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  • Nina

    o contraste desse fundo preto com as letras brancas fica muito desconfortável para a leitura. Já pensaram nisso?

    • http://www.popupdesign.com.br/ Leandro Lima

      Olá Nina, obrigado por comentar sobre isso.

      Fizemos várias experiências com diversas pessoas, e você foi a primeira que reclamou deste contraste.

      Na verdade, o contraste entre preto e branco é um dos mais forte que existe. Pode acontecer que, pelo  font-face que usamos e o seu sistema operacional estar com o anti-alising desligado as fontes aparecerem um pouco distorcidas.

      Vamos trabalhar para melhorar isso.

      Obrigado pela crítica.

Postamos coisas legais aqui


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